07.02 - Coluna Henrique Morgantini: O nosso Haiti particular


Não sei se é coisa de brasileiro ou se em todo o mundo é assim, e aí isto se tornaria coisa da humanidade mesmo. Mas o fato é que observando o comportamento brasileiro a partir de suas opiniões e pensamentos nas redes sociais na internet, e até mesmo nas reações gerais diante do noticiário, é possível diagnosticar uma série de pontos que são, no mínimo, curiosos.

Neste último mês o mundo está recebendo notícias sobre o Haiti. Aquele país do qual, quem conhece muito, conhece da prática do Vodu e da música do Caetano (o Haiti não é aquiiiii). Miséria, fruto das desigualdades sociais e os desarranjos políticos e econômicos, e tragédias naturais. Um terremoto fez um estrago incrível. Não foi o primeiro, nem o pior, tampouco será o último. Vinte militares brasileiros mortos. Pronto. Este cenário já foi o bastante para que o Brasil se despertasse em doações, preces, manifestações de pesar sem fim. Todo mundo, agora, descobriu que não pode viver sem ajudar ou se comover com o Haiti.

Não obstante, morreu junto com os militares, a fundadora da pastoral da criança, Zilda Arns. Que quem conhecia, já achava que tinha morrido. A esmagadora maioria nem sabe quem foi. É uma senhora de uma história de doação pessoal e grandes trabalhos. Mas foi igualmente o bastante para uma nova onda de consternação.

Diante disto, os brasileiros se tornam solidários, amorosos, sensíveis e dispostos a ajudar a qualquer custo. No twitter, a penúltima grande febre da rede (quando se fala em internet, a última é sempre a próxima tendência que estão tentando emplacar) o nível de comoção se tornou insuportável. Diversas contas correntes para doações, endereços para envio de ajuda, endereços eletrônicos divulgados incessantemente para que se mandem mensagens de solidariedade e informações, enfim. Um verdadeiro exemplo de amparo ao próximo. Só que o próximo não precisa estar no Haiti.

 

Aqui mesmo todos os anos, meses, semanas, dias têm gente precisando de ajuda. E, acredite, ajuda bem mais urgente que muitos que estão no Haiti. E ninguém se comove. Há quem queira ajudar haitianos, mas fecha o vidro no cruzamento das avenidas mais movimentadas das cidades para o trombadinha que pede dinheiro “ou-sei-lá-o-que-ele-pode-querer-dentro-do-meu-carro”. Lamenta terrivelmente a morte de Zilda Arns, mas se nega a doar R$ 50 ou R$ 100 aos diversos lares e casas de amparo a menores, crianças órfãs, idoso e tudo quanto é opção que todos temos para ajudar a quem precisa, bem aqui, do nosso lado. Bem aí, do seu lado.

Somos, sem dúvida, uma gente esquisita que nos deixamos levar pela comoção da mídia, interessada em notícias e demais desgraças para vender sites, jornais e programas de TV. O que é desgraça comove. O que comove, vende. É assim o jogo. E nos deixamos levar sendo capazes de chorar por quem não conhecemos, ajudar quem nunca vimos, ao passo que relegamos a outros planos inferiores os mesmos problemas, ou até piores, que estão bem a nossa frente.

A mais recente novidade foi uma onda maternal de brasileiros que enviaram documentações à embaixada haitiana no intuito de adotar haitianos órfãos do terremoto. Não teríamos, no Brasil, crianças o suficiente, amontoadas em orfanatos, esperando um gesto solidário para a adoção? O brasileiro, agindo assim, acaba por revelar a sua esquizofrenia: reclama das condições difíceis de vida e do atraso do Brasil no cumprimento de seus desafios, mas aos olhos do mundo, age como se morasse na Suíça. Como se precisasse aplicar a sua solidariedade, senso de ajuda e até mesmo a vontade de adotar alguém de fora do país, já que aqui não precisamos de ajuda, de atenção, de amparo e de adotar menores carentes, órfãos, miseráveis.

Se por um acaso, você se comoveu com o que a mãe natureza fez com o Haiti, antes de pensar em se mexer por isto, tente fazer o contrário: ajude àquela mãe que pede dinheiro com uma criança no colo no sinal. Ofereça um emprego se puder, um bico. À criança, um leite. Quem sabe eles não precisam deste tipo de ajuda? Ao palhaço que faz graça na frente do seu carro, lhe estenda uma chance, se você puder. Eles também são o Haiti.

Tente achar na sua cidade alguma instituição de pessoas que se dedicam a manter viva a esperança de crianças pobres, idosos, órfãos. Doe o que puder. Com R$ 20 muita coisa pode ser comprada. Tente ir até lá e se comover com a situação deles. Eles também são o Haiti. Quando pensar em adotar um bebê, vá aos orfanatos da sua cidade e veja que as opções são bem mais cruéis e vastas que você pode imaginar. Lá, há dezenas de pequenos haitianos. Nós todos somos o Haiti.

Ajude as instituições que amparam as pessoas, lhes dão abrigo, agasalho, comida ou carinho. Nós temos as nossas próprias Zildas Arns por aqui também, só que não recebem o tratamento de heróis nacionais quando morrem. Não nos deixemos levar pela emoção da mídia e esquecer as nossas próprias mazelas.

E lembre-se: “O Haiti é aquiiiiiii”.

 


Henrique Morgantini é jornalista.

Henriquemorgantini@gmail.com
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